sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Atire a primeira pedra





Letícia Thompson

Atire a primeira pedra quem nunca chorou de tristeza ou de saudade!

Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu perdido, quem nunca duvidou, quem nunca se entregou ao cansaço e ao desânimo!

Atire a primeira pedra quem nunca amou nem que fosse um bocadinho e que não se decepcionou...

Quem nunca tentou segurar uma lágrima que teimou em descer, quem nunca sentiu vergonha, quem nunca sentiu piedade de si e, fechado num quarto, queria que o mundo parasse de girar.

Atire a primeira pedra quem nunca desejou esquecer algo que sabe perfeitamente que o coração não vai se esquecer.

Quem nunca se sentiu magoado, quem nunca teve os olhos brilhando, quem nunca sonhou com uma vida perfeita e quem nunca errou; quem nunca começou algo que não terminou, quem nunca se arrependeu.

Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu diferente, se sentiu bonito e se sentiu feio, orgulhoso ou arrasado.

Quem nunca se amou e quem nunca se detestou.

Atire a primeira pedra quem nunca esperou, quem nunca teve medo de perder; quem nunca teve o sentimento de não poder se levantar depois de uma queda, mas que acabou descobrindo que isso é bobagem, pois a gente se levanta sempre.

Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu carente, quem nunca pensou na mãe e quem nunca desejou ter colo, mesmo depois de grande...

Quem nunca teve medo de morrer quando estava doente e que se esqueceu quando ficou bom o quanto a vida é valiosa.

Agora...

Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu feliz, quem nunca riu, quem nunca brincou, quem nunca cantou, quem nunca teve coração acelerado e se emocionou.

Tenho certeza que pedras caem uma a uma e a minha é a primeira delas...



quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Não eras tu...


(sem menção do autor)

Não eras tu...
Eras a fantasia do meu coração carente que encantou-se pela doçura de tuas palavras
e deixou-se prender pelo visgo do teu olhar cor de céu...
Era a expectativa dos meus anseios...

E tu alimentavas meu ego e eu me nutria de falsas promessas...

O homem que eu amei era ilusão criada em meus devaneios quando meu coração explodia em desejos de alcançar-te e tocar-te...

O homem que eu amei e que nunca toquei só existiu dentro do meu querer, porque eu o via através da vitrine, mas era apenas vidro e se quebrou...

Quebrou-se o encanto, a magia....

Partiu-se em mil pedacinhos
o homem que eu amei...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Gravidez da Amizade




Letícia Thompson

Toda amizade é uma história particular.

É uma história de conquista.

Primeiro,descobre-se o outro.

Todo mundo parece igual, mas não é.

E é justamente essa coisinha diferente
em cada um que torna cada pessoa única.

E de repente ali está a sementinha da
amizade fecundada.
A gestação começa.
São pedacinhos de nós que vão ficando
nas conversas e pedacinhos do coração
do outro que vão caminhando pra dentro
da gente.
Há os risos e os sorrisos,
a partilha de coisas simples ou de coisas
importantes.

As descobertas, cheias de surpresas muitas vezes.

A voz calada que pensa, não diz nada... adivinha!...

Fazemos idéia imediata de uma pessoa
ao primeiro contato.
Julgamos? Talvez.
E só os próximos dias, horas ou instantes
vão nos dizer se julgamos certo.
Acontece de nos termos enganado em
certos pontos e quantas vezes não bendizemos isso!

Claro que ninguém gosta de estar enganado.

Mas quando descobrimos um palhacinho
por detrás de uma pessoa séria e reservada
é maravilhoso saber que pudemos nos enganar.

Se todos os enganos fossem assim abençoados!...

A sensibilidade do outro nos toca.

Dá até vontade de chorar.

Não sabemos direito o porquê de nos sentirmos
próximos de alguém assim tão longe,
tão diferente e tão igual.

Mas amizade, como o amor, não se questiona.

Vive-se.
Dela e pra ela. É preciso dar tempo
ao tempo para se sabe
r cativar e ser cativado.
Quando saímos às pressas sempre temos
o risco de deixar alguma coisa esquecida.

Mas se tomamos o tempo de olhar bem,
refletir, conversar, conversar e conversar...

e rir e brincar e ficar em silêncio!...

Se deixamos que essa flor nasça cuidadosa
e docemente...
aos poucos ela vai vendo a luz do dia.

Maravilhando-se.

Contemplando o outro com novos olhos,
ou nova maneira de olhar.
Tudo vira encanto!
Que o outro ria de mim ou pra mim,
mas que ria!

Gargalhe, faça festa!...
Que eu seja nem que seja por um pouco
responsável por esse rosto iluminado, por
essa vontade de viver e de ver o que virá depois.

Bendita seja essa gestação amiga!
Sem prazo, sem tempo, sem hora marcada!
Bendita seja essa amizade, prova de que
Deus se faz conhecer através das pessoas que
alcançam nosso coração.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Roteiro do Tempo





Myriam Peres

Sou mais um rosto na multidão
Dentre tantos que por aí estão
Sou semblante, o entardecer das tardes
Sou amanhecer, sou também o anoitecer
No meu rosto, sou todo o meu viver…

Sou idade, sou verdade, sou saudade
Sou o todo e o nada por que já passei
Sou bondade, sou fraterna, sou lealdade
De tantas coisas que alimentei
Quero só ser também felicidade…

Ontem adormeci gente
Hoje amanheci rugas
Nas tardes sou transparente
Em mutantes, muitas visões
Vivo o sim, o não das tentações…

Sou Atenção!, Espere!, Pare!
Sou Proibido Ultrapassar
Sou semáforo da ilusão
Vermelho sempre na emoção
Pisco alerta com coração…

Sou mão única, Siga em frente!
Por não poder retroceder
Dobre à direita, sempre pra não sofrer
Proibido estacionar, não posso parar
Permitido estar, procurar e esperar…

Sinal verde, mão única
Rolando, rodando sem parar
Não estaciono sigo a seta
Vou em busca de minha meta
Pra em meu destino poder chegar…

Vou com cautela devagarinho
Velocidade mínima no meu caminho
Obedecendo sempre a sinalização
Prudente, calma, atenta na direção
Não avanço os sinais do meu coração…

Quero chegar segura ao meu destino
E poder alçar vôo pra outros ninhos
Quero no vôo livre do meu chegar
Acenar pra todos o meu passar
E alcançar o sinal de continuar…


sábado, 24 de janeiro de 2009

Se existe saudade




Leticia Thompson

A saudade é esse passarinho que vem de leve e pousa no nosso coração trazendo lembranças, como um colibri que beija a flor e traz beleza. E ela nem escolhe hora ou lugar, só aparece assim, invadindo inteiramente esse espaço que consideramos reservado às pessoas ou ocasiões especiais.

Mas se existe saudade, é porque existem sementinhas de ternura plantadas em nós; pedacinhos de coisas boas, que talvez nem tenham ficado muito tempo, mas o suficiente para deixar um rastro, um sabor, uma marca, um perfume.

Outro dia, falando sobre a saudade que sinto da minha família virtual, ouvi, com surpresa, alguém dizer que não é possível sentir saudade de pessoas que nunca vimos.

E como não? Que nome dar então a essa falta, esse vazio nostálgico, dolorido e bom que invade a alma e toma conta do momento?

Essa viagem que fazemos sem malas e documentos e que nos leva e nos trás, cheios de amor e de não sei o que? A saudade é uma prova, um certificado, carimbado e assinado o embaixo de que não estamos inteiramente sós e nem vazios.

As pessoas vêm e vão e ficam assim se prolongando em nós, existindo pela eternidade do nosso caminho. E amanhã ou depois, quando tudo o que sobrar em nós forem pedaços do passado, teremos esse coração rico em histórias que nos farão rir sozinhos e nos sentir vivos.São essas as peças que os verdadeiros amigos pregam ao nosso coração.

Caímos nessa armadilha e ainda nos divertimos.

Aprendemos assim que sentir saudade é respirar o amor que plantaram em nós.
É viver depois repletos desse amor para a vida toda.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Desvenda-me



Lenya Terra

Não venha me falar de razão,
Não me cobre lógica,
Não me peça coerência,
Eu sou pura emoção.
Tenho razões e motivações próprias,
Sou movido por paixão,
Essa é minha religião e minha ciência.
Não meça meus sentimentos,
Nem tente compará-los a nada,
Deles sei eu,
Eu e meus fantasmas,
Eu e meus medos,
Eu e minha alma.
Sua incerteza me fere,
Mas não me mata.
Suas dúvidas me açoitam,
Mas não deixam cicatrizes.
Não me fale de nuvens,
Eu sou Sol e Lua,
Não conte as poças,
Eu sou mar,
Profundo, intenso, passional.
Não exija prazos e datas,
Eu sou eterno e atemporal.
Não imponha condições,
Eu sou absolutamente incondicional.
Não espere explicações,
Não as tenho, apenas aconteço,
Sem hora, local ou ordem.
Vivo em cada molécula,
Sou o todo e sou uno,
Você não me vê,
Mas me sente.
Estou tanto na sua solidão,
Quanto no Teu sorriso.
Vive-se por mim,
Morre-se por mim,
Sobrevive-se sem mim.
Eu sou começo e fim,
E todo o meio.
Sou seu objetivo,
Sua razão que a razão
Ignora e desconhece.
Tenho milhões de definições,
Todas certas,
Todas imperfeitas,
Todas lógicas apenas
Em motivações pessoais,
Todas corretas,
Todas erradas.
Sou tudo,
Sem mim, tudo é nada.
Sou amanhecer,
Sou Fênix,
Renasço das cinzas,
Sei quando tenho que morrer,
Sei que sempre irei renascer.
Mudo a protagonista,
Nunca a história.
Mudo de cenário,
Mas não de roteiro.
Sou música,
Ecôo, reverbero, sacudo.
Sou fogo,
Queimo, destruo, incinero.
Sou água,
Afogo, inundo, invado.
Sou tempo,
Sem medidas, sem marcações.
Sou clima,
Proporcional a minha fase.
Sou vento,
Arrasto, balanço, carrego.
Sou furacão,
Destruo, devasto, arraso.
Mas também sou cimento, sou tijolo,
Construo, recomeço...
Sou cada estação,
No seu apogeu e glória.
Sou seu problema
E sua solução.
Sou seu veneno
E seu antídoto
Sou sua memória
E seu esquecimento.
Eu sou seu reino, seu altar
E seu trono.
Sou sua prisão,
Sou seu abandono e
Sou sua liberdade.
Sua luz,
Sua escuridão
E seu desejo de ambas,
Velo seu sono...
Poderia continuar me descrevendo
Mas já te dei uma idéia do que sou.
Muito prazer, tenho vários nomes,
Mas aqui, na sua terra,
Chamam-me de AMOR


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A águia e o Pardal



O sol anunciava o final de mais um dia e lá, entre as árvores, estava Andala, um pardal que não se cansava de observar Yan, a grande águia.


Seu vôo preciso, perfeito, enchia seus olhos de admiração.

Sentia vontade de voar como a águia, mas não sabia como o fazer.
Sentia vontade de ser forte com a águia,mas não conseguia assim ser.
Todavia, não cansava de segui-la por entre as árvores só para vislumbrar tamanha beleza.
Um dia estava a voar por entre a mata a observar o vôo de Yan, e de repente a águia sumiu de sua visão.
Voou mais rápido para reencontrá-la, mas a águia havia desaparecido.


- Quero ser uma águia como tu, Yan.

Mas meu vôo é baixo, pois minhas asas são curtas e vislumbro pouco por não conseguir ultrapassar seus limites.
- E como te sentes amigo sem poder desfrutar, usufruir de tudo aquilo que está além do que podes alcançar com tuas pequenas asas?
- Sinto tristeza.
Uma profunda tristeza.
A vontade é muito grande de realizar esse sonho...
- O pardal suspirou olhando para o chão...
E disse:
- Todos os dias acordo muito cedo para vê-la voar e caçar.
És tão única, tão bela. Passo o dia a observar-te.
- E não voas?
Ficas o tempo inteiro a me observar?
Indagou Yan.
- Sim.
A grande verdade é que gostaria de voar como tu voas...
Mas as tuas alturas são demasiadas para mim e creio não ter forças para suportar os mesmos ventos que, com graça e experiência, tu cortas harmoniosamente...
- Andala, bem sabes que a natureza de cada um de nós é diferente, e isso não quer dizer que nunca poderás voar como uma águia.
Sê firme em teu propósito e deixa que a águia que vive em ti possa dar rumos diferentes aos teus instintos.
Se abrires apenas uma fresta para que esta águia que está em ti possa te guiar, esta dar-te-á a possibilidade de vires a voar tão alto como eu.


- E assim, a águia preparou-se para levantar vôo, mas voltou-se novamente ao pequeno pássaro que a ouvia atentamente: Andala, apenas mais uma coisa:

- Não poderás voar como uma águia,se não treinares incansavelmente por todos os dias.
O treino é o que dá conhecimento, fortalecimento e compreensão para que possas dar realidade a teus sonhos.


Se não pões em prática a tua vontade, teu sonho sempre será apenas um sonho.

Esta realidade é apenas para aqueles que não temem quebrar limites,crenças,conhecendo o que deve ser realmente conhecido.
É para aqueles que acredita serem livres,e quando trazes a liberdade em teu coração poderás adquirir as formas que desejares,pois já não estarás apegado a nenhuma delas.


Um pardal poderá, sempre, transformar-se numa águia,se esta for sua vontade.

Confia em ti e voa, entrega tuas asas aos ventos e aprende o equilíbrio com eles.


Tudo é possível para aqueles que compreenderam que são seres livres, basta apenas acreditar, basta apenas confiar na tua capacidade em aprender e ser feliz com tua escolha